quarta-feira, 31 de março de 2010

Golpe de 64

Hoje faz 46 anos do Golpe de 64, ou Revolução, como querem alguns poucos - e cada vez mais, poucos .

Há 46 anos me levantei e fui tomar café. Eram 6:00hs da manhã.
Meu pai já tinha se levantado.
Estranhei, pois não tinha o costume de encontrá-lo quando acordava. Ele saia mais cedo. Tinha que ir para a loja, arrumar balcões e preparar tudo para abrir às 7:00.

- Hoje voce não precisa ir a aula... pode voltar pra cama, me disse com uma cara de preocupado.
Ôbaaaa!!! pensei eu e caí na cama de novo.
Dormi até as 10:00hs.

Papai continuava em casa.
Desta vez com o ouvido colado em um radinho de pilha.
Peguei meu carrinho de rolimã e corri pra rua.
Estava um dia ótimo para descer a California.

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Diferenças dos cerebros masculino e feminino

Excelente !!

Mutatis & Mutantes

Os Mutantes / Arnaldo


O dia se fez com aquele céu limpo, tão comum nos dias de abril. Poucas nuvens, esparsas.
Depois de um copo de café puro, bem forte, traçado com 8 gotas de veneno doce, acordei, de fato.

-“Querido, (quando minha mulher me chama de querido em pleno acordar, e num domingo, tem coisa...)
hoje é o batizado da filha da Ana. Vai ser lá naquela Igrejinha da avenida Carandaí, lembra dela, não é “
...e passa rapidamente com o rosto todo empapado de cremes e com o secador na mão, rumo ao banheiro.
-“Batizado ? domingo ? de manhã? E eu com isso? perguntei com ares de pouco interesse...
-Vai ser coisa rápida, poucas pessoas e... ela é tão boazinha... ela e o Mário...lembra dele, não é? Eu comprei um presentinho pro nênem e queria que você ...vruuuuuuummmmmmm , ligou o secador e não escutei mais nada.

Temporona. Casamento de velho. Ela já passou dos 45, apesar de tentar fazer tipo menos de 40, e ele dos 55, com um jeitinho de mais de 60.
Tentaram muito ter um filho, e veio a neta, depois de 3 tipos de tratamentos, rezas e outras macumbas. Conseguiram, finalmente.

... vruuuuummmm ...e não vai demorar nada. Eu mandei passar aquela camisa com listas, aquela que te põe mais magro... ta pendurada aí perto dos ternos, terminou minha mulher.
10 horas. Estamos nós no batizado.
Uma igrejinha simpática, pequena, mas aconchegante, sem luxo.
Por ficar próximo ao centro de Belo Horizonte, é pouso de todo tipo de pessoas, sem-teto, sem-dinheiro, sem-assunto, sem-chance na vida...
Era a Igreja-dos-Sem.
Principalmente depois que indaguei minha mulher o porquê de se fazer o batizado lá.
-O padre é amigo de uma amiga e se dispôs a batizar a menina, filha de casal que não casou na Igreja e por isto não fez o tal cursinho pra batizar.
Em suma, mais gente para a turma dos “Sem”, os Sem-casamento, os Sem-curso-de-padrinho, e os novos Sem-benção-da-igreja.
Havia mais dois casais com filhos pra batizar, todos munidos de avôs e avós, tios e tias e, naturalmente, todos associados à turma dos “Sem” na Igreja-dos-Sem.
Zuuuuuuuuuummmm....conversa era discreta, tom baixo, como condiz ao lugar.
Todos na espera pelo padre.
Nos instalamos mais ao fundo, o que numa Igreja pequena é dizer pouco.
Umas 15 fileiras de bancos, somente.
Um rápido giro de olhar e reparo em uma pessoa sentada a umas 5 fileiras à frente.
-“Conheço aquele cara, falei pra minha mulher. Não sei de onde, mas conheço.”
-“Claro que conhece, ironizou minha mulher, ”é o Arnaldo, dos Mutantes.”
-“Arnaldo, dos Mutantes? Tá brincando?”
-“Claro que não. Ele mora lá no Morro do Chapéu, com a Fulana, amiga da Ana.”
Esqueci o batizado.
Fiquei só olhando o cara.
Franzino, meio careca, olhar de menino espantado, reparando em tudo, como se tudo fosse novo pra ele.
Levantei e cochichei pra minha mulher.
-“Vamos sentar mais perto dele.”, ..

Bicho, o Arnaldo dos Mutantes, meu. Mutantes, Rita Lee, meus 14/20 anos, “ dizem que sou louco - pra onde eu vou, venha também – hoje eu vou sair de casa vou.”...
Voltei lá trás, em 66/71. Discos de vinil, long play dos Mutantes, festivais, shows dos Mutantes, viajei em pleno batizado.
E com isto ele realmente foi muito rápido, como previra minha mulher, e eu fiquei com o Arnaldo na cabeça.
Na saída, todo mundo a cumprimentar o casal e elogiando a menina.
Eu também, mas vigiando o Arnaldo.
-“Eu vou falar com ele, falei com minha mulher.”
-“Que besteira, deixa de bobagem, deixa ele em paz.”
-“Não, eu vou lá.” E fui.

Tenho 1,84 e peso mais de 120kg. Sou literalmente, dois Arnaldo.
Bati em seu ombro. Ele se virou e me olhou, botou a mão no rosto pra ver melhor, pois teve que olhar para cima e o sol veio direto em seus olhos.
O olhar dele era amigável, de gente conhecida, manso, aquele olhar que agente tem depois de tomar umas, risonho, desprevenido.
-“Arnaldo, me desculpe o assédio, o atrevimento, mas eu tive que vir falar com você.” Ele balbuciou alguma coisa que eu não entendi, e eu continuei:
-“Bicho, você é o Arnaldo dos Mutantes, não é mesmo?”
-“Sou, mas... mas eu te conheço?” Falou com voz mansa...
-“Não bicho, eu sou somente um de seus milhares ou milhões de fans, parados no tempo”.
Ele continuava a me olhar curioso. Ensaiou um riso de quem reconhece um quase parente.
Parente, era o que eu me considerava daquele cara. Eu conhecia quase tudo deles.
-“Bicho, se você tiver me achando meio sacal, meio bobão, pô, me perdoe por isto”...
-“De jeito nenhum”, ficou sério, “você é que me desculpe, pois não tenho mais o costume de ser abordado assim e as vezes posso cometer alguma indelicadeza”...
-“Indelicadeza, jamais, de jeito algum, você não conseguiria.
O Arnaldo de que me lembro nunca faria isto. É ídolo, é músico, é um Mutante, é a única banda brasileira listada na Bilboard e reconhecida mundialmente...”

Ele tentou falar mas minha ansiedade era muita e eu soltei o verbo:
-“Olha, eu sei que você deve ter coisa pra fazer, me desculpe novamente”, insisti, “mas eu queria deixar registrado uma coisa pra você: nesta vida nos lutamos pra ser alguém e isto significa, fazer diferença na vida de pessoas que nos cercam, dos que nos são próximos, nossos filhos, amigos, conhecidos, uma pequena que seja, mas uma diferença que seja boa, construtiva, amiga, para que eles gostem de nós. No fundo é uma troca. E nós, inconscientemente, precisamos disto. Nos alimenta. Normalmente conseguimos um pouco com nossos filhos, esposa, amigos, em um número relativamente pequeno de pessoas. A grande maioria se dá por satisfeita se conseguir isto. Mas você, você fez diferença em uma geração de jovens, uma geração inteira...quantos? 5 milhões, 10 milhões, 20 milhões de pessoas jovens que tiveram Mutantes, Arnaldo e Cia em sua vida e os levam por sua vida, e passam para seus filhos, e que toda vez que ouvem alguma música que vocês tocaram pra nós, naquele tempo, nos faz voltar ao melhor tempo da vida de qualquer ser humano, a adolescência, onde se vive de emoções e para elas e elas estão afloradas, vivas, expostas, e sendo sentidas em sua plenitude, em sua total potencialidade. Vocês fizeram isto com estas pessoas. Como você se sente, como é pensar sobre isto, conviver com isto?”
Disse isto tudo a ele, numa tacada só e olhando em seus olhos.
Vi que ao final do meu “discurso” seus olhos estavam molhados, quase lacrimejando, seu rosto suava, suas mãos tinham um leve tremor....
Ele engasgou ao tentar falar... não saiu nada.
Me deu um abraço apertado, depois passou a camisa de manga comprida nos dois olhos, me olhou e sussurrou : “Obrigado..”.
Virou de costas e não olhou para trás.
Com os olhos minados de lagrimas, respondi :
- Obrigado a você....
A mão de minha mulher puxou meu braço:
-Vamos...

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Um pouco de 68

Quem viveu, vai lembrar...

Quem não viveu, imagine...

Nossos nós


Foi a noite mais longa e mais fria,
Que a madrugada gelada acolheu.
Quase o dia negou-se a nascer,
Ao rever minha vida vazia...

O amor que era tudo, não foi...
Duas promessas, acesas a dois,
...e a chama perdeu seu calor,
As promessas...estas
Veio o vento ... as levou.

Resta agora, em seguida,
Desatar todos nós,
Nós atados a sós,
Que nos deram razão, uma vida...

Nos proviam suporte,
Sem pensar em má sorte
Ou prever rompimento
Do amor,
Sentimento consorte(?)...

Não há mais saída,
Promessas, se faz e se fia,
Estes nós nos ataram, e
Prometeram tão caro,
Promessas demais para um dia.

Não vou dar passo atrás,
Não me sinto capaz,
De querer, de te amar,
De morrer por você, por um fim,
Como disse fazer...

Já não quero fazer,
Já não posso...
Acabou.
Era amor,
Era nosso,
Morreu antes de mim.

sábado, 23 de janeiro de 2010

Sô Afonso... meu pai.


Hoje, 23 de janeiro meu pai faria 85 anos... Mas quis a vida que ele nos deixasse mais cedo, aos 77 anos, numa manhã de 17 de abril de 2002.

Até hoje eu me esforço para assimilar o que era meu pai para mim. Me pego pensando nele, na sua vida, na nossa vida. Fico buscando coisas fora de mim, no relacionamento, nas nossas discussões, conversas, risos...

E aos poucos, para minha surpresa, vou descobrindo ele dentro de mim, em gestos iguais aos dele que faço sem me dar conta, em situações com meus filhos, em procedimentos pequenos, e penso, cada vez mais, que ele nunca saiu de mim...

Escrevi esta poesia para homenageá-lo, descrevendo um momento que significou muito em nossas vidas.



Sô AFONSO,
do Brumado

(Ou, como a amizade e a solidariedade fazem diferença e deixam recordações em todos que são atingidos por elas)


Transcrito (do jeito que deveria ter sido falado pelo seu velho e grande amigo Arcilino) em 09/03/2007, em dia de homenagem em Brumado de Pitangui, por ocasião da inauguração do Centro Cultural de Brumado, que recebeu o seu nome, e na passagem dos 5 anos de seu falecimento.
Arcelino, coitado, morreu dias antes do evento...
Dizem que foi de emoção...

Ao meu pai, um visionário, com idéias de mudar o mundo,
mas sobrou pra ele, carregá-lo nas costas,
a vida toda....



“ Meus amigo,
Ôcêis num se alembra,
Proquê ocêis tudo é mucho novo...

Mai, foi num 23 de janêro
De mili-novicento-e-vinte-cinco.

Dia assim cumo otro carqué,
Pregunta ao povo intêro...

Dia de trabaiá,
De fazê bico...

Mas num pensava assim
O Cumpadre Chico....

Pra ele, era ispeciár o dia.
Dia de cruzá os dêdo,
Daquêis de fazê vigia...

Lá de dento
Da mudesta moradia,
Vinha uns grito arto.
Arguém gemia...

Maria Rémunda, sua muié,
Cumpanhêra de luta e fé,
Num insforço derradêro,
(tá certo, qui foi num berrêro),
Mas sem ajuda dinfermêra,
Pariu com dor,
De vezada,
Depositando a barrigada,
Nos braço da fiér Parteira,

(Óia, Que pelejou com muito afinco...
Deus-do-Céu,
Que trabaiêra!!)

Mais um,
Pensô o Chico.
Do seus fio, o quinto.
Na cama,
O risurtado inda chorava,
Quando o Chico,
Inrepentino,
Adentrou os quarto,
In-pranto:
Mas deu um sunriso largo,
Ao vê quiera menino:
-Vai se achamá Afonso Arino...
Afonso Arino da Rocha Pena,
Cumpretô de supetã,
Assustando as cumadre
Que tava ali
Assistino a pariçã,

E deu pro resurvido
O pobrema.

...e de noite,
Lá no bar do Zé Muchiba,
Sem ligá pros das intriga,
Nem pros sordado da guarnição,
Bebeu tudo e gritou arto,
Pra alertar os bando de frouxo
Que pudéss aparincê na região:

-É Fio-home, cabra-macho, do saco-rôcho...
E fez questão
De dá pros santo,
Moiada da mió cachaça comprada,
Nas banda do riberão

-Que é pra assegurar distino, falô...

E tomô o resto da branca
De arrancada...

Forte e branquélo,
Era o rebento.
Ôio azur,
Risadatôa...
Apesar dum pôco resmunguento,
Mamou logo nos petcho.
Vida danada de boa.

E por pôco,
Já corria, brincava,
Fazia lambança,
No quintár ou casa adento...
Alegria da vizinhança,
Na piquena Sete Lagôa.

Lá ele cresceu
E instudô...
Até que a famia siamudô
Pra capitár,
(pra ser dôtô, uai!!)

Mas a vida trocô sorte,
E o moço arto e forte,
Gostava mesmo é dinsporte...

Êita,
Do Brasquet ô Volibór...
Jugava cum chuva ô sór,
Jugava quaisque o dia intêro,
Cunquistando inté campeonato.
Campeão Menêro?
Foi quatro.
E tumém foi Brasilêro,
Cumo Ténico e jugador.

Até que lá pelos ido de 49-50,
Foi chamado,
Veja só:
Pra ténico da
Seleçã Feminina
de Volibór.
Ah! Com a garra que Deus deu,
E talento
- nunca vi tanto
Juntô ca fama
- que mereceu-,
E foi disaguar,
Tumá assento,
Cumo ténico de volibór
Du time feminino
Dus Santo,
Santo du Pelé,
(ôceis sabem quem é, né?)

Pro lá ficou uns dois ano..
Inté que a Dona Marelena,
Que passô
Dus Gonçarve pra Pena,
Insposa que era,
Intonce,
Deu sinár de gestaçã...

Diacho !!!
Parlista não, pensô,
Menêro, uai...

-Vamos tratá de pegá os avião, muié...
E de Santo ele pega e sai..

Seadespediur sem fazê cena e
Vortô pro Belorzonte...

...e insperô o fio nascer...

Que nome dá pu menino?

Pensô num monte:
Pedro, Benedito, Getuio...
Ô quim sabe, Juscelino?
Vicente Celestino ?
Era muito baruio...

E tudo mundo invórta
assugeria:
-Põe Francisco,
não, não,
-Põe Zé Maria...

Achei!! pensô cunsigo,
Vai se achamá Rudrigo”,
Ele tema.

E quando viu os parente
Misturando os Jão com José,

Saiu caladinho, deu no pé,
Registrô, cum letra de carta,
No Cartório da Comarca
O nome que tinha fé.

Primeiro da lista, pensô....
Outros envém mais:
-Enquanto eu for capaiz...
Falô firme com o sôgro.

Mas, com sembrante preocupado,
Pruquê tava disimpregado,
-Eu princiso trabaiá, sô...

Sô Juquita, sôgro bacana,
Resorveu, bem na semana:
-Num si apreocupe,
Já tá arrumado:

-Ôcê, Afonso, vai ser Gerente
Lá de uma fabrica do Brumado....

E pro Brumado, o Afonso veio.
Brumado do Pitangui,
Soube adispois por outros meio...

Terra boa, hospitalêra,
Gente humirde, trabaiadêra,

Acoieu êle de forma intêra...
Virou mimo do lugar.

E foi aqui,
Bem neste chão,
Nesta parte da ribêra,
Margiando o rio São João,
Que fez famia,
Fez um lar.

Amigo, intonce, nem se fala...

Cum seu trato caridoso,
Preocupado cum tudo povo,
Ajudava carqué um de carqué jeito,

...e se não desse,
Ia ao Prefeito!!!
Ah!!! Era homem que
Não se cala, sô!!

E enquanto não risurvia,
Num rédava pé da sala,
Fosse noite, fosse dia...

Logo carreou respeito.

E tem mais:
Era amigo leal, dos petcho,
E dos carqué que se apartô,
Num carecia ser letrado,
Pobre ou trabaiador,
Pôco importava...

Digo aôceis qui nem ôiava.

Era ajuda? Pricisão?
Era na hora...ajudava.

Com ele num tinha “nhenhenhe” ou
“Vórta adispois”...

Naum sinhô,
Naum sinhô...

Tava ali ó,
Era o que precisava...

Inté conseio de casório dava.

E num instantinho passado,
De Afonso Arino, Sinhô,
Passou a ser cunhicido e chamado,
Sô Afonso,
Sô Afonso do Brumado.

Pelos empregado da fábrica,
Pelos colega da pescaria
Pelos amigo da cerveja
E inté pros da folia...

Deles, falava muito...ele ria...
-Ah! Tem um tanto, dizia.
Tem o Batista, o Duduca, Dico, o Jair,
O Mozart, Zé Chaves, o Zé Bibi,
Sem esquecê dum amigão, o Arcilino...
(é o véio aqui... me adiscurpe a imocã...)

E pra não incorrer em pecado divino,
Do bondoso e sempre caridoso Padre Guerino.

Peço adiscurpa aos fartante,
Pois a mimória não vai adiante,

Mais sei que tem mais, mutcho mais...
Os amigo tudo, ispiciais...

Gente que se quer tê do lado,
Pras hora da guerra e da paz...

Gente do quilate dum Tasso,
Cabra-macho, cabra-de-aço,
Daquêis que
Quando se pede u‘a mão,
Já vem logo um braço.

E a famia continuô a crescê.

Nasceu u´a menina, a Patríça,
E dois ano adispois,
Otro menino, o Bráulo,

Os dois alegre,
Cum muintcha saúde.

Pro Rudrigo foi diliça,
Uns irmãozin prêle brincá.
Mudô parte da rotina
Que sua vida piquenina
Se encantava de levar.

E pra ajudá Dona Marelena,
Veio a Alice,
Ainda muito pequena,
-Uns doze ano,
Adispois ela mema me adisse,
Mai duma esperteza só,
Parecia inté muié maió...

Veio pra ajudá a tumá conta,
Brincá cum as criança,
Tava sempre pronta...

Otra lasca de tempo, e
Mais uma fia se amostrô,
Deu sinár de nascimento:
-Essa num demora,
Falô Dona Marelena,
Arrumando logo a cama,
Pra esperada menina-Luciana.

Aqui eles tiveram do bom
E do mió.

De manhã, veja só,
Fornada de pão quentin
Com leite frisquin,
Tirado no próprio quintár,
Da vaquinha mais mansinha
Arrumada pelo pessoár...

Fruta, verdura de horta,
Tudo os vizinho culia,
E lembrava, oferecia na porta...
Era coisa natural
Quais tudus dia...

Mas é sabido, mundo afora,
Que o destino num faia: tem hora...

E adispois de tanto tempo,
Morando e vivendo filiz no Brumado
Sô Afonso, foi convocado,
Prum sirviço demarcado...

Num me alembro bem no momento,
Mai era lá na Capitár do Estado.

Assumi uma tár de promoçã...
Recompensa dos serviço bâo,
Prestados nesta terra do Brumado.

Ah!! Nessa hora pesô a dor do
Afastamento...

Dos amigo,
Dos colega de trabaio,
Inté dos jogos de baraio
Ou das festa de casamento.

Nos seus ombro, caiu o mundo..
Coitado ...

E foi cum sufrida imoçã,
Cum os pensamento in
Jisus Crist, NosSinhô,
(in-nomi-du-pai-du-fio-du-insprito-santo)
Sinhô da Terra, do Mar e do Cér profundo,
Que avisou pra tudo mundo,
Da decisã:

Ôiô pros lado,
Meio sem jeito, e contô...

Mas prumeteu logo vortá,
Se cunvidado fosse, é craro:
Cunvite logo feito, né memo?

Pro quê tudo mundo já sintiam
Sardade,
Ao dispedi e abraçá o amigo,
De grande instimação,

Que foi imbora, partiu,
Siguiu camin...

E com ele levô,
Ah!! eu garantcho,
De cada um que ficô,
Mais que abraço de amigo,
A sôdade do irmão...

Mas sei tumém
Que aqui ele deixô,
Além das lágrima do pranto,
As coisa que de mió ele tinha
E que Deus ponhô no seu coração...”

Brigado e
Deus ajudi ôcêis,
Nossinhô, abençôa ôcêis tudo...
Tá bão?

Inté. ”

O PRINCÍPIO 90/10

Que princípio é este?
Os 10% da vida estão relacionados com o que se passa com você, os outros 90% da vida estão relacionados com a forma como você reage ao que se passa com você.
O que isto quer dizer?
Realmente, nós não temos controle sobre 10% do que nos sucede. Não podemos evitar que o carro enguice, que o avião atrase, que o semáforo fique no vermelho. Mas você é quem determinará os outros 90%...
Como? Com sua reação.

Exemplo:
Você está tomando o café da manhã com sua família. Sua filha, ao pegar a xícara, deixa o café cair na sua camisa branca de trabalho. Você não tem controle sobre isto. O que acontecerá em seguida será determinado por sua reação.
Então, você se irrita. Repreende severamente sua filha e ela começa a chorar. Você censura sua esposa por ter colocado a xícara muito na beirada da mesa... E tem prosseguimento uma batalha verbal. Contrariado e resmungando, você vai mudar de camisa. Quando volta, encontra sua filha chorando mais ainda e ela acaba perdendo o ônibus para a escola. Sua esposa vai pro trabalho, também contrariada. Você tem de levar sua filha, de carro, pra escola. Como está atrasado, dirige em alta velocidade e é multado. Depois de 15 min. de atraso, uma discussão com o guarda de trânsito e uma multa, vocês chegam à escola, onde sua filha entra, sem se despedir de você. Ao chegar atrasado ao escritório, você percebe que esqueceu de sua maleta. Seu dia começou mal e parece que ficará pior. Você fica ansioso pro dia acabar e quando chega em casa, sua esposa e filha estão de cara fechada, em silêncio e frias com você.
Por quê?
Por causa de sua reação ao acontecido no café da manhã.
Pense: por quê seu dia foi péssimo?
A. Por causa do café?
B. Por causa de sua filha?
C. Por causa de sua esposa?
D. Por causa da multa de trânsito?
E. Por sua causa?

A resposta correta é a E.
Você não teve controle sobre o que aconteceu com o café, mas o modo como você reagiu naqueles 5 min. Foi o que deixou seu dia ruim.

O café cai na sua camisa. Sua filha começa a chorar. Então, você diz a ela, gentilmente: "está bem, querida, você só precisa ter mais cuidado". Depois de pegar outra camisa e a pasta executiva, você volta, olha pela janela e vê sua filha pegando o ônibus. Dá um sorriso e ela retribui, dando adeus com a mão.

Notou a diferença?
Duas situações iguais, que terminam muito diferentes.
Por quê?
Porque os outros 90% são determinados por sua reação.

Aqui temos um exemplo de como aplicar o Princípio 90/10.
Se alguém diz algo negativo sobre você, não leve a sério, não deixe que os comentários negativos te afetem. Reaja apropriadamente e seu dia não ficará arruinado. Como reagir a alguém que te atrapalha no trânsito? Você fica transtornado? Golpeia o volante? Xinga? Sua pressão sobe? O que acontece se você perder o emprego? Por quê perder o sono e ficar tão chateado? Isto não funcionará. Use a energia da preocupação para procurar outro trabalho. Seu vôo está atrasado, vai atrapalhar a sua programação do dia. Por quê manifestar frustração com o funcionário do aeroporto? Ele não pode fazer nada. Use seu tempo para estudar, conhecer os outros passageiros. Estressar-se só piora as coisas.

Agora que você já conhece o Princípio 90/10, utilize-o.
Você se surpreenderá com os resultados e não se arrependerá de usá-lo.
Milhares de pessoas estão sofrendo de um stress que não vale a pena, sofrimentos, problemas e dores de cabeça. Todos devemos conhecer e praticar o Princípio 90/10.
Pode mudar a sua vida!

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Da serie "Os piores empregos do mundo" ...

Lara faz 16 anos... (28/05/07)

Para minha afilhada.
Para que ela se lembre que :

por onde quer que vá,
para onde a vida te levar,
por quais caminhos trilhar,
por todo sonho que seguir,
por todo muro que saltar,
por toda vala que cair,
por quais mares velejar,
por todos morros que escalar,
pelas buscas cometidas,
pelo abrigo das amigas,
pela ausência de paisagens,
pela ilusão das imagens,
pelas tristezas que colher,
pelo que quiser morrer,
por tudo que esquecer,
pelos anos que virão,
pelo seu entardecer,
por toda vida que viver,
pela promessa que é cara,
pelo que futuro que antepara,
por todo bem que se declara,
por nobre gema e doce clara,
pelo ovo-sacro que as ampara,
pelos dezesseis que hoje encara,
pelo brilho de uma estrela solitária,
pelo esplendor, que é sempre jóia rara,
por intensos gestos de louvor,
pelo fruto que é, e germinou,
por jamais que assim pensara,
por ti, também, se rende a flor,
pela beleza contida em toda cor,
pelos nossos livres corações,
por nossas loucas emoções,
pela força de sentidas orações,
por toda ausência de dor,
pelo que vier a se opor,
pelo cheiro, ou
pelo odor,
pelo principal, todo calor,
pelo Eterno,
pelo o que for,
pela certeza eterna de nosso amor...

Harry Nilsson - Everybody ´s talking ..

Colorido

Foi vento encanado,
Que tempo tem,
Foi ardido momento,
Passou sem cor,

Sentimento em pedaços,
Do amor sobrou cacos
E um vento encanado a soprar,
A soprar ficou..

Quis morrer...implorei,
E pedi pra você ficar..
Sei errei ao pedir,
E implorar, eu sei,
E hoje vejo, você
Não foi bem de se ter
Não foi bem de se amar,

Houve um dia...
Fui amor,
Fui paixão,
Fui seu Sol,
Eu me fiz divertido
Eu amei colorido
Eu fui seu verão,

Quis o mundo ao inteiro
Num céu de brigadeiro
Para o nosso amor poder voar

Quis na espera de nós,
Nascer vento, e após
Eu quisera viver em seu mar,

Juntar Sol, juventude
Toda paz, plenitude, ou
Quem sabe, o infinito
Ou morrer em tentar...

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Tô muito abusado...


Belo Horizonte


Letras

Após o repetido encarar do branco das folhas se mostrar contumaz, confesso:
São dolorosas as letras, seja na frente ou no escondido verso.

Naufrágo... afogado em pensamentos dispersos...

Existirá mundo sem letras - consoantes, vogais...
Sem aspas ou pontos, infames sinais,
Personagens discretos de frases conexas,
Fortuitas, complexas, infindas?

Me lembra um filho, infeliz, questionando seus pais..

Disfarço, empalideço...
São medonhas as tramas que ocorrem em assuntos transversos...

Em vão, tento crer só na existência dos dias em mundos letrados,
Grafados e garfados por
Pensamentos famintos de uma mente inquieta,
Regados a instinto animal
Embutido em ego ancestral...

Revolvo pergaminhos sangrados,
Recolhidos despojos de batalhas intermináveis,
Arrestados por indesejadas
Corjas de idéias
Alienadas, e por vezes ensandecidas.

Malogradas, incompletas e
Ludibriadamente expostas,
As Letras remanescem
Nas horas últimas,
Expulsas pelo forceps da impaciência...

Nelas, me agarro, sôfrego...desesperado..

Ai de mim !!!
Sinto a gosma da imperfeição minar e fluir...

Esvaio-me.
Suo, mas delas é vez.
...e é nelas, e com elas que minha mente tenta por si, refazer-se...
Ressurge, convoca, agrega, aloca,
Dá meia-volta
... ao início do fim...

sábado, 2 de janeiro de 2010

Pipocas ao Celular

Quem duvida disto ?
Quem fala muito ao celular deve ter celulas fritas na cabeça e não sabe, ou melhor, cada vez vai saber menos, menos, menos...


Canção de amor pela TERRA

Gravada pelo Coral Infantil Gôtas da Canção, patrocinado pela Copasa e com regência de meu amigo, o Maestro e tenor, Alex "Pavarotti".

Se voce tem contato com algum colegio que tenha coral infantil divulgue este video.

A Sony Music, detentora da trilha de Pepperland, liberou para seu uso educativo e social.

Isabela e ela

Leio hoje : mais um pai joga sua filha de 3 anos da janela do 12º andar em Porto Alegre e pula depois... que forma desumana de se vingar de alguem, utilizando-se de um ser indefeso para isto. É insuportável.
Fiz a poezinha abaixo depois do ocorrido com a Isabela, 5 anos, em SP.
Fiquei muito abalado e não me cansarei de ficar... Ei-la :
Isabela e Ela (num sinal de trânsito qualquer...)


_seu Dôtô, paraí,
pérum pôquim,

abre os vido, oieu aqui,
prestatenção,instante só,

num ademora,
tô pidino grana não,
quero só expricação...
eu num sou das crasse arta
num nasci dos pediata
fui parida em caburão...

minha mãe fazia vida
o meu pai morreu na pinga
eu cresci lá no lixão...

um brinquedo, uma boneca
os estudo, a bicicreta,
era jura , era promessa
pra eu deixar passá as mão...

hoje eu queimo os pé noasfarto
sou vigia de assarto
peço esmola, pra vivê...
o meu rosto é de criança
mas no corpo tem lembrança
que Dôtô num quer saber...

outro dia, vi dizê
que matarumá menina
jugarela lá de cima
juntô gente assim pra vê..
disséru cá menina
morava nêdificil arto,
de levadô, portêro embaxo,
de piscina cum jardim...

tinha asroupa tuda fina,
os brinquedo que quisesse,
té boneca lá da China...
disserainda quéra alegre,
otros diz, que munto linda,
e tem mais, seu Dôtô,
num sei se inté carece,
duas avó e dois avô,
pai e duas mãe só dela...

que ela ia nescolinha
tinha monte de amiguinha,
festa de neversário cum balão, gual novela...
é...mas num sei não...
num tô acustumada
cum tanto negóço bão...
a vida num é assim lá na favela...

Dôtô, tem uma coisa que eu nuintindi:

se a menina é boazinha,
se ela era tão legal,
proque que fizeru esse mal,
proque que matáru ela?

é...num intendo não...

eu vou fazê nove ano...
desse jeito que o Dôtô tá vendo,
vou levano...
antes eu até queria sê,
um dia, como ela...
tê neversário, presente, natal...
góra... sei não...
mió ficá na favela,
que sê nutiça dos jornal...

asvez, quem sabe, pode sê
que um dia desse sem-querê,
pode sê que arguém me mata,
- tem muita chança deu morrê
que nem morre uma barata -,
e aí, memo sem pedi
eu enconto ela no céu,
junto do papai noel...
e aí eu vô dizê assim pra ela :

-olha, dessa vez.

pede pra nascer na favela...

... pode me dá 1 real ?

Planeta Terra - sem palavras

Aula de Direito

Um professor perguntou a um dos seus alunos do curso de Direito:

- Se você quiser dar a Epaminondas uma laranja, o que deverá dizer ?
O estudante respondeu:
- Aqui está, Epaminondas, uma laranja para você.

O professor gritou, furioso:
- Não ! Não ! Pense como um Profissional do Direito !

O estudante respondeu:
- Ok, então eu diria: Eu, por meio desta, dou e concedo a você,Epaminondas de tal, CPF e RG nºs., e somente a você, a propriedade plenae exclusiva, inclusive benefícios futuros, direitos, reivindicações eoutras vindicações, títulos, obrigações e vantagens no que concerne àfruta denominada laranja em questão, juntamente com sua casca, sumo,polpa e sementes, transferindo- lhe todos os direitos e vantagensnecessários para espremer, morder, cortar, congelar, triturar,descascar com a utilização de quaisquer objetos e, de outra forma,comer, tomar ou, de qualquer forma, ingerir a referida laranja, oucedê-la com ou sem casca, sumo, polpa ou sementes, e qualquer decisãocontrária, passada ou futura, em qualquer petição, ou petições, ou eminstrumentos de qualquer natureza ou tipo, fica assim sem nenhum efeitono mundo cítrico e jurídico, valendo este ato entre as partes, seusherdeiros e sucessores, em caráter irrevogável e irretratável,declarando Paulo que o aceita em todos os seus termos e conheceperfeitamente o sabor da laranja, não se aplicando ao caso o disposto noCódigo do Consumidor.

E o professor então comenta:
- Melhorou bastante, mas não seja tão sucinto, tão resumido, procure fundamentar mais.

Guimarães Rosa em 3 tempos


(Texto escrito a partir de relato de minha mãe, Maria Helena Guimarães Pena, no retrato com 15 anos; meu avô, José Lima Guimarães abaixo com 47, e Joãozito acima com 37, em 1945 ... )



















A consangüinidade resulta de parentesco predecessor, na união de entes familiares.

É inexorável, irrecusável, irrefutável.

Pode traduzir amizade, amor, empatia, lealdade, mas pode, também, não carregar nenhum destes predicados tão caros.

Não é causa e conseqüência.

Digo isto, pois consigo ver traços desta consangüinidade agindo em sua forma mais pura e preciosa, em pessoas que me cercam, nesta curta passagem do tempo, e através delas consigo imaginar outras, cujo tempo já passou, mas que nos legaram estes sentimentos maravilhosos, e nos permitem hoje ter uma convivência tão harmoniosa.

A eles, e por eles, rendo minhas modestas homenagens nestes escritos.


Sábiamente, nos lembra o protagonista de “Grande Sertão: Veredas :
-Viver é perigoso”, obra prima do imortal escritor João Guimarães Rosa, filho do casal Francisca e Floduardo Rosa e sobrinho de meu pai, meu primo.

Retruco ao mestre: Mas viver também é prazeroso.

Guardo lembranças de criança... 7 ou 8 anos teria, quando levada pela minha pequenina mão enlaçada à poderosa mão de meu pai, as vezes acompanhada de irmãos mais velhos, para visitar nossos tios. Passeio, diversão, não havia melhor finalidade.
Numa destas visitas, lembro meu pai conversando com um homem alto, que trazia um enfeite curioso junto ao pescoço: uma gravatinha borboleta xadrez, com tons de cinza e vermelho. Olhou para baixo, dentro dos meus olhos e depois para o homem :“ esta é a Leninha” . Achei engraçado a gravatinha e não escutei nada do que disseram sobre mim. Só tinha olhos para a gravatinha. O homem reparou em meu olhar e se abaixou: “gostou dela?” Estiquei a mão e peguei a gravatinha. “Chega Leninha, deixa o Joãozito levantar,” disse meu pai, ralhando em tom de brincadeira. Dei meia volta e desapareci correndo no quintal, procurando minhas primas, sem dar qualquer importância àquele encontro. Joãozito era um homem feito, médico, eu apenas uma criança.
Esta foi a primeira vez que me encontrei com Guimarães Rosa.
Anos mais tarde, já adolescente, 16 anos, fomos, meus pais, minha irmã Maria de Lourdes e minha prima Heloisa, passar uns dias no Rio de Janeiro.
Era outubro de 1945.
Embarcamos no Vera Cruz. Papai havia conseguido a cabine excelente, que foi oferecida a ele como cortesia pela Rede Ferroviária Federal. Magníficas as acomodações.
Antes registro o fato de ter sido acompanhada até o embarque por aquele que anos depois seria meu marido, Afonso Arinos Rocha Penna, de quem já era namorada, fazia alguns meses.
Feito este importante registro, continuo a narrativa.
Chegamos a Central do Brasil, desembarcamos e apanhamos um táxi. Havia uma anormal presença de soldados do Exercito, muito bem armados. Para onde olhássemos lá estavam os soldados.
Embarcamos no taxi, um Chevrolet 38. Ao virar a primeira esquina, começaram a aparecer tanques de guerra, enormes e barulhentos. Cruzaram nosso caminho soltando nuvens de fumaça preta. Sobre si trazia pilhas de soldados armados. Antes de chegar ao hotel fomos parados por um bloqueio militar. Tivemos que descer do carro e nossas malas foram abertas e revistadas.
Seguimos a corrida para o hotel. Meu pai virou-se para trás e com semblante tenso comentou alguma coisa com mamãe. Nós três, no banco de trás, ao lado dela, só tinhamos olhos para as vitrines e o mar.
Meu pai viajava muito a nogócios ao Rio e costumava ficar em um ótimo hotel na Cinelândia, na Av. Rio Branco, próximo aos teatros da época, que apresentavam Procópio Ferreira, Eva Tudor, e outros artistas. Sabia que teriamos que ter pernas para acompanhá-lo nesta empreitada divertida. Sua primeira providência no Hotel foi pedir para que se comprassem ingressos para esta ou aquela peça ou musical. Ele adorava “este” Rio dos shows.

Aquela noite, no entanto, não saímos. O Hotel cerrou suas portas e só entravam hospedes. As luzes foram diminuídas. Era quase penumbra. Não havia telefone. Pela janela do 5º andar víamos um movimento de Jeeps e Caminhões do Exército.
A alguns metros do hotel, dava para se ver um prédio com grandes colunas, meio acinzentado, com barricadas, tanques de guerra e homens armados á sua frente. Perguntei a meu pai o que era aquilo e ele nos explicou que era o prédio do Ministério da Guerra e lá estava o Marechal Dutra. Fiquei sabendo depois que naquela noite ele depôs o Presidente Getúlio Vargas.

De manhã bem cedinho, minha mãe nos acordou e mandou-nos preparar rapidamente, pois iríamos trocar de hotel.
E para minha surpresa fomos para o Copacabana Palace.
Um luxo só.
Tão logo nos instalamos naquela enorme suite, chega um mensageiro com um recado do Itamaraty: o Embaixador João Guimarães Rosa, solicitava a meu pai um horário para visita, ao tio e à sua familia.
Meu pai devolveu o recado convidando-o para almoçar conosco.
Recebemos Joãozito com muita alegria. Fomos novamente apresentados. Desta vez com mais formalidade. Lembrou-se ele do episódio da gravatinha borboleta de quase 10 anos atrás – naturalmente eu não me lembrava mais – e isto rendeu brincadeiras e chacotas de minha irmã e prima.
Conversou todo o almoço sobre sua vida de Embaixador, nos paises que servira, falou-nos de sua vida em Hamburgo onde estivera como vice-cônsul brasileiro e expressou sua revolta contra o autoritarismo nazista e pena dos pobres judeus, aprisionados em campos de concentração.
Referiu-se também aos jovens alemães que eram levados da casa de seus pais e educados pelo governo naquele regime absurdo.
Desta feita pude entender e apreciar melhor suas narrativas e o modo criativo de contar os fatos de sua própria vida. Mais tarde observaria semelhanças dessas palavras ouvidas com as escritas em seus livros.
Foi prazeroso estar com ele. Era uma pessoa que falava, falava e falava e nós não nos cansávamos de escutar. Em dado momento, minha irmã me cutucou com o braço e me mostrou que mais da metade das pessoas que almoçavam naquele momento, não conversavam: prestavam atenção à narrativa de Joãozito e riam das risadas dele e de papai, ao comentarem algum caso.
Minha irmã, pediu-lhe que falasse algumas palavras em japonês e ele pegou uma folha de jornal fornecida pelo hotel e leu as noticias neste idioma. Eu sugeri o alemão. Heloisa o russo e por aí afora, foram surgindo outros pedidos de outras mesas e esta mistura de línguas e dialetos, e curiosidades sobre a forma de falar deste ou daquele povo, transformando-se em brincadeiras, das quais rimos bastante.

Dez anos depois, foi a última vez que tive a oportunidade de estar com Joãozito foi em 1955. Eu já estava casada, com 2 filhos, morava em Brumado de Pitangui, e estava hospedada em casa de meus pais, acompanhando de perto a convalescença de papai.

Ao saber das noticia da doença de papai, Joãozito cancelou compromissos e veio a Belo Horizonte, visitar o tio. Ficou conversando com ele no quarto um bom tempo, e depois desceu e lanchou conosco. Parecia triste e abalado. Todos nós estávamos.
Ofereceu-se para mandar vir qualquer medicamento necessário e assim o fez depois da receita do médico de papai. Minha mãe deu a Joãozito uma caixa de goiabada feita em Pitangui. Ele agradeceu e abraçando-a disse que retornaria ao Rio no dia seguinte levando consigo aquele precioso presente.
Papai morreu em agosto daquele ano, mas Joãozito, que estava em viagem internacional, não compareceu ao enterro do tio querido.
Enviou telegrama para minha mãe do México, onde dizia estar extremamente abalado e chorando a grande perda de seu maior amigo.

Anos se passaram até o 16 de novembro de 1967, uma data especial e inesquecível para toda a família.
O escritor João Guimarães Rosa tornara-se membro da Academia Brasileira de Letras.
Aqui em Belo Horizonte, dias depois, todos estavam ainda comemorando este grandioso acontecimento do dia da posse quando chegaram as terríveis noticias.
Fazia apenas três dias desde sua assunção à imortalidade, conferida pelos seus mortais colegas de pena, quando ele, literalmente, apropriou-se de seu postulado e encantou-se.
Dele, ficou guardada em meu coração, uma frase sobre meu pai, que muito me orgulha e comove, principalmente, sido dita por quem disse:

“Se Deus quiser mesmo consertar o mundo, basta espalhar a semente do tio Juquita por aí...”