domingo, 27 de outubro de 2013

Estes senhores estão fazendo 72 anos. ..


Parece que foi ontem...

Era fim de 68, inicio de 69... 
Férias em Belo Horizonte. Domingo, à tarde.

O Cine Metrópole, um das maiores casas de cinema da cidade estava lotado. Lá fora uma multidão de adolescentes esperava conseguir entrar e assistir àquela sessão.
Muitos tinham chegado pela manhã. Filas e mais filas se formavam, completamente inúteis, pois ninguém obedecia a elas ... 
Alguns eram tirados do cinema pelos lanterninhas, à força, para que a próxima bilheteria pudesse entrar ( Uma coisa destas só tinha acontecido com "HELP!", dos Beatles, no ano de 1966/7.)

O Filme:
 "Primeira Noite de um Homem ( The Graduate) produzido em 1967, com Dustin Hoffman, Anne Bancroft, Katharine Ross, com a excepcional trilha sonora composta especialmente, por uma dupla ainda desconhecida para nós :

 Paul Frederick Simon (October 13, 1941, Newark, NJ) e Arthur Ira "Art" Garfunkel (November 5, 1941, Queens, NY).

Ou simplesmente SIMON & GARFUNKEL.

Depois daquele verão, eles seriam nossa eterna trilha sonora. Minha, de meus filhos e quem sabe um dia, de meus netos...

Abaixo dois momentos deles:

- ainda no começo de carreira, em 1966...

 
- e dois anos atrás...



Cazuza iria me invejar,  pois meus heróis não morreram de overdose. Estão aí, cantando maravilhosamente...

Que vivam para sempre !

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Para a última baleia...(versão que fiz para To the last whale)




 Musica de Crosby, Still & Nash 

To the last whale                                              Para a última baleia..

Over the years you have been hunted           Olho os navios, canhões na proa
by the men who throw harpoons                   Todos armados com harpões
And in the long run he will kill you                 Apontados para o mar azul,
jus to feed the pets we raise,                        Parte um tiro... e logo um grito ecoa
put the flowers in your vase                          Seja no frio, chuva, noite ou dia,
and make the lipstick for your face.             Ou se a baleia leva ao lado a cria...

Over the years you swam the ocean            As águas mansas do oceano
Following feelings of your own                     O seu refugio, lar, nação,
Now you are washed up on the shoreline    E morrem muitas, matam todo ano,
I can see your body lie                                 Culpados somos pela tradição 
It's a shame you have to die                         Dá vergonha, e é cruel demais,
to put the shadow on our eye                     E o mar, vermelho chega ao cais...

Maybe we'll go,                                            Talvez eu vá
Maybe we'll disappear                                 Ver você desaparecer
It's not that we don't know,                          Não é o que eu quero
It's just that we don't want to care.              Não quero ver isto acontecer
Under the bridge                                         Espero mesmo,
Over the foam                                             A caça cessar,
Wind on the water,                                      E singrar nas aguas
Carry me home.                                          ...você, tua cria, em teu lar...

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

100 anos do nascimento de Vinicius de Moraes ( 1913 - 2013)

100 anos do nascimento de Vinicius de Moraes 
( 19/10/1913 - 9/07/1980)

Este ano, em 19 de outubro, se estivesse vivo, um dos maiores poetas da língua portuguesa, faria 100 anos.

Não pode passar em brancas nuvens. Abaixo algumas fotos e poemas.




Soneto de Fidelidade

De tudo ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.
               

    



Tomara

Que você volte depressa
Que você não se despeça
Nunca mais do meu carinho
E chore, se arrependa
E pense muito
Que é melhor se sofrer junto
Que viver feliz sozinho

Tomara
Que a tristeza te convença
Que a saudade não compensa
E que a ausência não dá paz
E o verdadeiro amor de quem se ama
Tece a mesma antiga trama
Que não se desfaz

E a coisa mais divina
Que há no mundo
É viver cada segundo
Como nunca mais...



  Um lugar que gostava de estar, ler e beber, descansar: 
a banheira, e onde foi encontrado de manhã, pela empregada e Toquinho.

 Soneto de separação


De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.

De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama.

De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente.

Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente.



Vinicius e o copo de uisque. Dizia ele :
"O uísque é o melhor amigo do homem. É o cachorro engarrafado."



Pátria minha

A minha pátria é como se não fosse, é íntima
Doçura e vontade de chorar; uma criança dormindo
É minha pátria. Por isso, no exílio
Assistindo dormir meu filho
Choro de saudades de minha pátria.

Se me perguntarem o que é a minha pátria, direi:
Não sei. De fato, não sei
Como, por que e quando a minha pátria
Mas sei que a minha pátria é a luz, o sal e a água
Que elaboram e liquefazem a minha mágoa
Em longas lágrimas amargas.

Vontade de beijar os olhos de minha pátria
De niná-la, de passar-lhe a mão pelos cabelos...
Vontade de mudar as cores do vestido (auriverde!) tão feias
De minha pátria, de minha pátria sem sapatos
E sem meias, pátria minha
Tão pobrinha!

Porque te amo tanto, pátria minha, eu que não tenho
Pátria, eu semente que nasci do vento
Eu que não vou e não venho, eu que permaneço
Em contato com a dor do tempo, eu elemento
De ligação entre a ação e o pensamento
Eu fio invisível no espaço de todo adeus
Eu, o sem Deus!

Tenho-te no entanto em mim como um gemido
De flor; tenho-te como um amor morrido
A quem se jurou; tenho-te como uma fé
Sem dogma; tenho-te em tudo em que não me sinto a jeito
Nesta sala estrangeira com lareira
E sem pé-direito.

Ah, pátria minha, lembra-me uma noite no Maine, Nova Inglaterra
Quando tudo passou a ser infinito e nada terra
E eu vi alfa e beta de Centauro escalarem o monte até o céu
Muitos me surpreenderam parado no campo sem luz
À espera de ver surgir a Cruz do Sul
Que eu sabia, mas amanheceu...

Fonte de mel, bicho triste, pátria minha
Amada, idolatrada, salve, salve!
Que mais doce esperança acorrentada
O não poder dizer-te: aguarda...
Não tardo!

Quero rever-te, pátria minha, e para
Rever-te me esqueci de tudo
Fui cego, estropiado, surdo, mudo
Vi minha humilde morte cara a cara
Rasguei poemas, mulheres, horizontes
Fiquei simples, sem fontes.

Pátria minha... A minha pátria não é florão, nem ostenta
Lábaro não; a minha pátria é desolação
De caminhos, a minha pátria é terra sedenta
E praia branca; a minha pátria é o grande rio secular
Que bebe nuvem, come terra
E urina mar.

Mais do que a mais garrida a minha pátria tem
Uma quentura, um querer bem, um bem
Um libertas quae sera tamen
Que um dia traduzi num exame escrito:
"Liberta que serás também"
E repito!

Ponho no vento o ouvido e escuto a brisa
Que brinca em teus cabelos e te alisa
Pátria minha, e perfuma o teu chão...
Que vontade me vem de adormecer-me
Entre teus doces montes, pátria minha
Atento à fome em tuas entranhas
E ao batuque em teu coração.

Não te direi o nome, pátria minha
Teu nome é pátria amada, é patriazinha
Não rima com mãe gentil
Vives em mim como uma filha, que és
Uma ilha de ternura: a Ilha
Brasil, talvez.

Agora chamarei a amiga cotovia
E pedirei que peça ao rouxinol do dia
Que peça ao sabiá
Para levar-te presto este avigrama:
"Pátria minha, saudades de quem te ama…






sábado, 12 de outubro de 2013

Que as crianças cantem livres...

Neste 12 de outubro, dia das crianças, posto homenagem que tem dupla finalidade:

  homenagear as crianças. As minhas, as suas e a que fomos um dia, 

com uma musica feita para elas, e para o que representam: o futuro. 

E homenagear um dos gênios da raça brasileira. 

Seu nome: Taiguara.

Muito injustiçado e pouco reconhecido.

Ele nos deixou muito cedo, aos 50 anos. 

A musica linda e a maravilhosa letra, foram feitas numa época difícil, em plena ditadura.

Ao final, uma pequena biografia, para os que não o conheceram.

Desfrutem da poesia e da musicalidade deste brasileiro ímpar, excepcional letrista e pianista.

 

  Que as Crianças Cantem Livres

O tempo passa e atravessa as avenidas
E o fruto cresce, pesa e enverga o velho pé
E o vento forte quebra as telhas e vidraças
E o livro sábio deixa em branco o que não é...


Pode não ser essa mulher o que te falta
Pode não ser esse calor o que faz mal
Pode não ser essa gravata o que sufoca
Ou essa falta de dinheiro que é fatal...


Vê como um fogo brando funde um ferro duro
Vê como o asfalto é teu jardim se você crê...

Que há sol nascente avermelhando o céu escuro
Chamando os homens pro seu tempo de viver...

E que as crianças cantem livres sobre os muros
E ensinem sonho ao que não pode amar sem dor,

E que o passado abra os presentes pro futuro
Que não dormiu e preparou...
o amanhecer, o amanhecer, o amanhecer...




Taiguara Chalar da Silva (Montevidéu, 9 de outubro de 1945São Paulo, 14 de fevereiro de 1996) foi um cantor e compositor brasileiro nascido no Uruguai durante uma temporada de espetáculos de seu pai, o bandoneonista e maestro Ubirajara Silva.
Mudou-se para o Rio de Janeiro em 1949 e para São Paulo, posteriormente, em 1960. Largou a faculdade de Direito para se dedicar à música. Participou de vários festivais e programas da TV. Fez bastante sucesso nas décadas de 60 e 70. Autor de vários clássicos da MPB, como Hoje, Universo do teu corpo, Piano e viola, Amanda, Tributo a Jacob do Bandolim, Viagem, Berço de Marcela, Teu sonho não acabou, Geração 70 e "Que as Crianças Cantem Livres"; entre outros.
Considerado um dos símbolos da resistência à censura durante a ditadura militar brasileira, Taiguara foi um dos compositores mais censurados na historia da MPB, tendo cerca de 100 canções vetadas. Os problemas com a censura eventualmente levaram Taiguara a se auto-exilar na Inglaterra em meados de 1973. Em Londres, estudou no Guildhall School of Music and Drama e gravou o Let the Children Hear the Music, que nunca chegou ao mercado, tornando-se o primeiro disco estrangeiro de um brasileiro censurado no Brasil.
Em 1975, voltou ao Brasil e gravou o Imyra, Tayra, Ipy - Taiguara com Hermeto Paschoal, participação de músicos como Wagner Tiso, Toninho Horta, Nivaldo Ornelas, Jacques Morelenbaum, Novelli, Zé Eduardo Nazário, Ubirajara Silva e uma orquestra sinfônica de 80 músicos. O espetáculo de lançamento do disco foi cancelado e todas as cópias foram recolhidas pela ditadura militar em poucos dias. Em seguida, Taiguara partiu para um segundo auto-exílio que o levaria à África e à Europa por vários anos.
Quando finalmente voltou a cantar no Brasil, em meados dos anos 80, não obteve mais o grande sucesso de outros tempos, muito embora suas músicas de maior êxito tenham continuado a serem relembradas em flashbacks das rádios AM e FM.
Morreu em 1996 devido a um persistente câncer na bexiga.

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Discurso do escritor Luiz Ruffato na abertura da Feira do Livro de Frankfurt, dia 8/10/13:




"O que significa ser escritor num país situado na periferia do mundo, um lugar onde o termo capitalismo selvagem definitivamente não é uma metáfora? Para mim, escrever é compromisso. Não há como renunciar ao fato de habitar os limiares do século 21, de escrever em português, de viver em um território chamado Brasil. Fala-se em globalização, mas as fronteiras caíram para as mercadorias, não para o trânsito das pessoas. Proclamar nossa singularidade é uma forma de resistir à tentativa autoritária de aplainar as diferenças.
O maior dilema do ser humano em todos os tempos tem sido exatamente esse, o de lidar com a dicotomia eu-outro. Porque, embora a afirmação de nossa subjetividade se verifique através do reconhecimento do outro --é a alteridade que nos confere o sentido de existir--, o outro é também aquele que pode nos aniquilar... E se a Humanidade se edifica neste movimento pendular entre agregação e dispersão, a história do Brasil vem sendo alicerçada quase que exclusivamente na negação explícita do outro, por meio da violência e da indiferença.
Nascemos sob a égide do genocídio. Dos quatro milhões de índios que existiam em 1500, restam hoje cerca de 900 mil, parte deles vivendo em condições miseráveis em assentamentos de beira de estrada ou até mesmo em favelas nas grandes cidades. Avoca-se sempre, como signo da tolerância nacional, a chamada democracia racial brasileira, mito corrente de que não teria havido dizimação, mas assimilação dos autóctones. Esse eufemismo, no entanto, serve apenas para acobertar um fato indiscutível: se nossa população é mestiça, deve-se ao cruzamento de homens europeus com mulheres indígenas ou africanas - ou seja, a assimilação se deu através do estupro das nativas e negras pelos colonizadores brancos.
Até meados do século 19, cinco milhões de africanos negros foram aprisionados e levados à força para o Brasil. Quando, em 1888, foi abolida a escravatura, não houve qualquer esforço no sentido de possibilitar condições dignas aos ex-cativos. Assim, até hoje, 125 anos depois, a grande maioria dos afrodescendentes continua confinada à base da pirâmide social: raramente são vistos entre médicos, dentistas, advogados, engenheiros, executivos, jornalistas, artistas plásticos, cineastas, escritores.
Invisível, acuada por baixos salários e destituída das prerrogativas primárias da cidadania --moradia, transporte, lazer, educação e saúde de qualidade--, a maior parte dos brasileiros sempre foi peça descartável na engrenagem que movimenta a economia: 75% de toda a riqueza encontra-se nas mãos de 10% da população branca e apenas 46 mil pessoas possuem metade das terras do país. Historicamente habituados a termos apenas deveres, nunca direitos, sucumbimos numa estranha sensação de não pertencimento: no Brasil, o que é de todos não é de ninguém...
Convivendo com uma terrível sensação de impunidade, já que a cadeia só funciona para quem não tem dinheiro para pagar bons advogados, a intolerância emerge. Aquele que, no desamparo de uma vida à margem, não tem o estatuto de ser humano reconhecido pela sociedade, reage com relação ao outro recusando-lhe também esse estatuto. Como não enxergamos o outro, o outro não nos vê. E assim acumulamos nossos ódios --o semelhante torna-se o inimigo.
A taxa de homicídios no Brasil chega a 20 assassinatos por grupo de 100 mil habitantes, o que equivale a 37 mil pessoas mortas por ano, número três vezes maior que a média mundial. E quem mais está exposto à violência não são os ricos que se enclausuram atrás dos muros altos de condomínios fechados, protegidos por cercas elétricas, segurança privada e vigilância eletrônica, mas os pobres confinados em favelas e bairros de periferia, à mercê de narcotraficantes e policiais corruptos.
Machistas, ocupamos o vergonhoso sétimo lugar entre os países com maior número de vítimas de violência doméstica, com um saldo, na última década, de 45 mil mulheres assassinadas. Covardes, em 2012 acumulamos mais de 120 mil denúncias de maus-tratos contra crianças e adolescentes. E é sabido que, tanto em relação às mulheres quanto às crianças e adolescentes, esses números são sempre subestimados.
Hipócritas, os casos de intolerância em relação à orientação sexual revelam, exemplarmente, a nossa natureza. O local onde se realiza a mais importante parada gay do mundo, que chega a reunir mais de três milhões de participantes, a Avenida Paulista, em São Paulo, é o mesmo que concentra o maior número de ataques homofóbicos da cidade.
E aqui tocamos num ponto nevrálgico: não é coincidência que a população carcerária brasileira, cerca de 550 mil pessoas, seja formada primordialmente por jovens entre 18 e 34 anos, pobres, negros e com baixa instrução.
O sistema de ensino vem sendo ao longo da história um dos mecanismos mais eficazes de manutenção do abismo entre ricos e pobres. Ocupamos os últimos lugares no ranking que avalia o desempenho escolar no mundo: cerca de 9% da população permanece analfabeta e 20% são classificados como analfabetos funcionais --ou seja, um em cada três brasileiros adultos não tem capacidade de ler e interpretar os textos mais simples.
A perpetuação da ignorância como instrumento de dominação, marca registrada da elite que permaneceu no poder até muito recentemente, pode ser mensurada. O mercado editorial brasileiro movimenta anualmente em torno de 2,2 bilhões de dólares, sendo que 35% deste total representam compras pelo governo federal, destinadas a alimentar bibliotecas públicas e escolares. No entanto, continuamos lendo pouco, em média menos de quatro títulos por ano, e no país inteiro há somente uma livraria para cada 63 mil habitantes, ainda assim concentradas nas capitais e grandes cidades do interior.
Mas, temos avançado.
A maior vitória da minha geração foi o restabelecimento da democracia - são 28 anos ininterruptos, pouco, é verdade, mas trata-se do período mais extenso de vigência do estado de direito em toda a história do Brasil. Com a estabilidade política e econômica, vimos acumulando conquistas sociais desde o fim da ditadura militar, sendo a mais significativa, sem dúvida alguma, a expressiva diminuição da miséria: um número impressionante de 42 milhões de pessoas ascenderam socialmente na última década. Inegável, ainda, a importância da implementação de mecanismos de transferência de renda, como as bolsas-família, ou de inclusão, como as cotas raciais para ingresso nas universidades públicas.
Infelizmente, no entanto, apesar de todos os esforços, é imenso o peso do nosso legado de 500 anos de desmandos. Continuamos a ser um país onde moradia, educação, saúde, cultura e lazer não são direitos de todos, mas privilégios de alguns. Em que a faculdade de ir e vir, a qualquer tempo e a qualquer hora, não pode ser exercida, porque faltam condições de segurança pública. Em que mesmo a necessidade de trabalhar, em troca de um salário mínimo equivalente a cerca de 300 dólares mensais, esbarra em dificuldades elementares como a falta de transporte adequado. Em que o respeito ao meio-ambiente inexiste. Em que nos acostumamos todos a burlar as leis.
Nós somos um país paradoxal.
Ora o Brasil surge como uma região exótica, de praias paradisíacas, florestas edênicas, carnaval, capoeira e futebol; ora como um lugar execrável, de violência urbana, exploração da prostituição infantil, desrespeito aos direitos humanos e desdém pela natureza. Ora festejado como um dos países mais bem preparados para ocupar o lugar de protagonista no mundo --amplos recursos naturais, agricultura, pecuária e indústria diversificadas, enorme potencial de crescimento de produção e consumo; ora destinado a um eterno papel acessório, de fornecedor de matéria-prima e produtos fabricados com mão de obra barata, por falta de competência para gerir a própria riqueza.
Agora, somos a sétima economia do planeta. E permanecemos em terceiro lugar entre os mais desiguais entre todos...
Volto, então, à pergunta inicial: o que significa habitar essa região situada na periferia do mundo, escrever em português para leitores quase inexistentes, lutar, enfim, todos os dias, para construir, em meio a adversidades, um sentido para a vida?
Eu acredito, talvez até ingenuamente, no papel transformador da literatura. Filho de uma lavadeira analfabeta e um pipoqueiro semianalfabeto, eu mesmo pipoqueiro, caixeiro de botequim, balconista de armarinho, operário têxtil, torneiro-mecânico, gerente de lanchonete, tive meu destino modificado pelo contato, embora fortuito, com os livros. E se a leitura de um livro pode alterar o rumo da vida de uma pessoa, e sendo a sociedade feita de pessoas, então a literatura pode mudar a sociedade. Em nossos tempos, de exacerbado apego ao narcisismo e extremado culto ao individualismo, aquele que nos é estranho, e que por isso deveria nos despertar o fascínio pelo reconhecimento mútuo, mais que nunca tem sido visto como o que nos ameaça. Voltamos as costas ao outro --seja ele o imigrante, o pobre, o negro, o indígena, a mulher, o homossexual-- como tentativa de nos preservar, esquecendo que assim implodimos a nossa própria condição de existir. Sucumbimos à solidão e ao egoísmo e nos negamos a nós mesmos. Para me contrapor a isso escrevo: quero afetar o leitor, modificá-lo, para transformar o mundo. Trata-se de uma utopia, eu sei, mas me alimento de utopias. Porque penso que o destino último de todo ser humano deveria ser unicamente esse, o de alcançar a felicidade na Terra. Aqui e agora.


 *Luiz Ruffato é um dos escritores mais importantes da atualidade. Vencedor de vários prêmios, o mineiro  nascido em Cataguases, MG,  em 1961, é filho de um pipoqueiro e de uma lavadeira de roupas. Formou-se em tornearia-mecânica e trabalhou como operário da indústria têxtil, pipoqueiro e atendente de armarinho durante a Juventude . Graduou-se em Comunicação pela  UFJF.

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Avassalador





Avassalador,
Foi te encontrar...
Avassalador,
 Me faltou ar...


Um olhar bastou
 E um olhar te dei 
 Ninguém mais notou
Foi incrível, eu sei

Avassalador
 Só mais tarde, eu vi,
Que eu me apaixonei...


Avassalador
Tomou-me o ser,
 Avassalador
Não hei, não fui, não sou,

]
 E sem mais dizer,
 Levou o não e o sim
Só fui perceber
Quando dei por mim


Avassalador
Onde houve um eu
Hoje há só você...


sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Um pouco de T.S.Eliot - nos 125 anos de seu nascimento



Sigamos então, tu e eu,
Enquanto o poente no céu se estende
Como um paciente anestesiado sobre a mesa;
Sigamos por certas ruas quase ermas,
Através dos sussurrantes refúgios
De noites indormidas em hotéis baratos,
Ao lado de botequins onde a serragem
Às conchas das ostras se entrelaça...


Ruas que se alongam como um tedioso argumento
Cujo insidioso intento
É atrair-te a uma angustiante questão . . .
Oh, não perguntes: "Qual?"
Sigamos a cumprir nossa lida,

Na fulva neblina que roça na vidraça suas espáduas,
Fumaça amarela que em teu rosto se esfrega
E cuja língua resvala nas esquinas do crepúsculo,
Pousa sobre as poças aninhadas na sarjeta,
Deixa cair sobre teu dorso a fuligem das chaminés,
Desliza furtiva no terraço, em repentino salto,

E alça vôo ao perceber que era uma tenra noite de outubro,
Enrodilha-se ao redor da casa e adormece.

Tempo há de haver
Para que ao longo das ruas flua a parda fumaça,
Roçando suas espáduas na mesma vidraça;
Tempo haverá...

Tempo haverá para moldar um rosto com que enfrentar
Os rostos que encontrares;
Tempo para matar e tempo para criar,
Tempo para todos os trabalhos e dias em que mãos
Sobre teu prato se erguem, mas depois se deixam cair;
Tempo para ti e tempo para mim,
E tempo ainda para uma centena de indecisões,
E uma centena de visões e revisões,
Antes do servir do chá com torradas...


O poeta, escritor e dramaturgo Thomas Stearns Eliot nasceu em St. Louis, Missouri, Estados Unidos, a 26 de setembro de 1888, e faleceu em Londres, com 76 anos de idade, a 4 de janeiro de 1965.

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Ávido


Ávido


Se olhar pra trás, em minha vida,
Verá música em meu seguir...
Me fiz assim, como saída
Pra romper muros, resistir
Pus nas letras meus enganos,
Meus afetos, meus receios,
Melodias, gritos roucos,
Dancei choro e desesperos,
Pra tirar você de mim

Um dia ainda me lembro,
Quis você na primavera
Fiz-me leve, era setembro
Como leve em um soneto
Fiz-me breve, fui “prometo”,
Fiz de tudo pra dar certo
Foi sonho meu,
Ter seu afeto... 

Ser o sonho mais sonhado,
Ser o ente mais querido,
Tu serias a rainha e
Eu um servo apaixonado,
Minha vida o teu reinado,
E a vida, assim, fazer sentido... 

Aqui estou, me vejo agora, 
Livre, sem laço...
Quem me vê, não mais a vê,
Junto a meu braço,
Quer me quer,
Quer carinho e meu abraço...
Quem me ajuda a dar um passo
Pra mudar a minha sorte?
Vou querer qualquer suporte,
Pra deixar toda esta fossa,
E partir, buscar meu norte...
Ouvir a música do espaço,

Triar a tristeza do mundo, 
Ser verdade no que faço
E a beleza por prazer, por se ter paz
De saber que não te ter junto a meu braço
É somente um passo a mais,
Um passo a frente, 

Se ontem fiz-me qual demente
E fui ator em fato trágico
Hoje atuo como mágico,
Que a ilusão de si, desprende...
Importa mais curtir meu ócio,
E ser do amor o amante incerto,
Ao invés de ser oculto sócio, 
Num despertar ávido, inquieto,
Buscando alguém que me transcende...


domingo, 1 de setembro de 2013

O Sentido da Vida...


Em um reino distante, o Mestre-mor, filosofo e guardião da verdade, grande curandeiro, agonizava em seu leito de morte.
À volta do leito,  o Rei, a Rainha, príncipes e princesas, Duques, Condes e Barões esperavam seu último suspiro.
O Rei, o mais próximo à cabeceira, se acerca do Mestre e o questiona:
-Mestre, agora que estás próximo de cumprir teu destino, aqui entre nós, poderia nos deixar com a verdade suprema:

 qual o sentido da vida?

Todos olharam com semblante tenso e olhar fixo naquele rosto magro, cabelos ralos, que respirava com dificuldade.
O Mestre, vagarosamente, abriu os olhos e com ar sublime sussurrou:

"a vida é como uma xícara de chá."

Um "OH!!!" ecoou no grande cômodo.
Um serviçal que atendia ao mestre em suas necessidades últimas, saiu da sala e sussurrou para um outro serviçal e este para o outro, e assim, logo todo reino repetia, assentindo:

 a vida como é uma xícara de chá;

Até que, em um ponto longínquo, um cidadão, descompromissado e corajoso, ousou perguntar:

-Mas por que a vida é como uma xícara de chá?

Como veio a assertiva voltou a dúvida. Rápida. Até chegar aos ouvidos do Rei, que seus súditos questionavam a afirmação do Mestre.
Muito a contragosto, o Rei se aproximou novamente da cabeceira do leito e quase em tom de súplica,  temeroso, perguntou ao Mestre, que já se encontrava em seus estertores:

-Mas Mestre,  por que a vida é como uma xícara de chá?

O Mestre reuniu suas últimas forças, lentamente deu uma sacudidela de ombros e respondeu sussurrando:

-"Recebi esta resposta de meu Mestre, quando lhe fiz esta pergunta. Nunca parei para pensar sobre ela...e agora não terei mais tempo. Talvez a vida não seja como xícara de chá.

Mas quem se importa..."






sábado, 24 de agosto de 2013

Quem somos ?


 


Somos aqueles, os pessimistas,
 alimentados por sombras de tragédias possíveis e plausíveis, inventadas pelos esqueletos do medo
guardados em armários carcomidos pelo tempo,
ou assustados por ausências repentinas e
arrestados pelos arrependimentos tardios ?


Ou seremos então só restos esquálidos,
 irmãos dividindo a mortalha curta
que nos revela inúteis, imprestáveis,
à medida que cumprimos nossa jornada previsível,
inodora e insossa ?
 

Ou somos aqueles que se servem da razão dos covardes
para emitir murmúrios,
uns poucos pios submissos
bradados pelos que disputam a piedade alheia
e as migalhas caídas da mesa ?

 
Ou seremos aqueles que sucumbem
 aos olhares de escárnio
daqueles poucos 
que nos ensurdecem aos gritos de:

 Basta ! De pé !! ?

Se assim for, a culpa é nossa
só nossa, homens ocos,
que crescem parindo um silêncio
que nos acompanhará pela eternidade !


quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Brilho no Olhar

 
 


Versão que fiz para "The way you look tonight" . Cantada por mim acompanhado pelo Marcos Frederico(violão e baixo), Dado Prates (saxofone) e Bastos(bateria). Produção musical do Marcos Frederico, gravado no estúdio Liquidificador - BH.

Abaixo a letra.



Brilho no olhar

 

Não sei, se hoje tem luar,
Se há nuvens no céu,
Sei que estrelas já não brilham mais lá,
Como brilha o teu olhar...

És a imagem
És meu sonho ao vivo,
O sol em teu sorriso
E ao beijar teus lábios, vou sonhar mais
Com o brilho deste olhar

Teu rosto em meu rosto, ao som da canção
Dançamos, teu corpo, colado ao meu... 
Sussurros, promessas, se faz e se jura,
Caricias de amor e ternura...

Querida
Nunca, não, não mude,
Fique assim pra sempre
Me ame em plenitude, pois te amo,
E amo o brilho deste olhar...
 

Teu rosto em meu rosto, ao som da canção
Dançamos, teu corpo, colado ao meu...
Sussurros, promessas, se faz e se jura,
Caricias de amor e ternura...
 
Querida
Nunca, não, não mude,
Fique assim pra sempre
Me ame em plenitude, pois te amo,
E amo o brilho deste olhar...

sábado, 15 de junho de 2013

Último grito !!


Ultimo grito
 jun/2013)







 


Nos querem discretos, em pontos marcados,
Obrando apressados, sonhando em comprar,
O carro do ano ou mais um celular, e
Os juros extorquem, quem consignar:
Com Copas do Mundo nos querem sedar!


 Pessoas doentes, carentes de amparo,
A morte que espreita,  apura o seu faro,
Os glutões, no Poder, tem champagne e grelhados,
Na feira, as famílias, pagando mais caro,
Espertos se elegem com a sopa aos coitados!

 
Mil males assombram, no ar um receio,
Que a praga se alastre, e nos faça de meio,
Nem pense em rezar ou fazer penitência,
Se os grandes culpados da vil truculência:
Estão no Poder, corrompendo a decência!

 
A tragédia se estampa 
 na  tela  das  oito.
Nos chega ao jantar
 ou  na hora   do coito,
Mataram? Ou morreu,
Era velho ou criança?
Uma guerra sangrenta,
Um estupro assassino?
Diz o dono da voz:
“se conforme, é o destino”!!!

 
A Droga se espalha na Sociedade,
Impostos que assaltam, custeiam Compadres,
A Justiça prescreve e o Transporte não serve,
É o Estudo que falta, e a Saúde que aflita:
E culpam por tudo a herança maldita!

 
A vida é uma faca, e seu corte é profundo!
Nos cerca de horror e maldita agonia,
Que encarna, se infiltra, ao findar mais um dia,
E nos torna insensíveis, alheios à dor:
E olhe pra baixo ao pedir "por favor"!

 
(repetir)
 E dormimos rezando:
"Que nada aconteça, 
À patroa, aos meninos,
de mim, não se esqueça,
E a desgraça se faça
ao vizinho do lado,
 E nos poupe outra vez
nosso corpo cansado:
ou nos venha de vez a loucura à cabeça! "